A recente alta dos rendimentos dos títulos públicos de economias desenvolvidas não provocou a fuga esperada dos mercados emergentes. Ao contrário, a dívida local desses países acumula ganhos, enquanto pares desenvolvidos recuam.
O que aconteceu
A venda de títulos soberanos de países desenvolvidos levou os rendimentos a níveis máximos em décadas, em meio à inflação ainda elevada e ao aumento do endividamento público. Mesmo com essa competição por rendimento, a dívida emergente manteve demanda. O Paquistão levantou um valor recorde em uma emissão de títulos em dólar, e os spreads sobre os Treasuries americanos diminuíram 0,25 ponto percentual durante a operação. O índice EMBI+, do JPMorgan, que mede os prêmios dos títulos emergentes sobre os títulos dos EUA, permaneceu estável e ficou ligeiramente abaixo do nível registrado no início do ano. Segundo a fonte, títulos emergentes em moeda local subiram cerca de 3,5% no ano, enquanto os equivalentes de países desenvolvidos caíram 1,7%.
Por que isso importa
O movimento sugere uma mudança na comparação de risco entre os dois grupos. Países emergentes teriam aprimorado sua condução macroeconômica após crises anteriores, enquanto economias desenvolvidas enfrentam inflação persistente, déficits elevados e maior oferta de dívida. Nos dados citados, os juros de dez anos da Malásia ficaram pouco abaixo de 4% e os da Tailândia, abaixo de 2,2%, contra mais de 4,75% nos Treasuries. Isso não elimina os riscos dos emergentes, mas mostra que os títulos dos países ricos já não oferecem a mesma percepção de segurança relativa.
O que deve ser observado
O mercado deve acompanhar a inflação americana prevista para setembro, a trajetória dos preços de energia e os planos fiscais dos Estados Unidos, Japão e outras economias desenvolvidas. Também importa observar se a demanda por dívida emergente continuará firme caso os rendimentos americanos permaneçam elevados. O governo dos EUA adiciona aproximadamente US$ 2 trilhões em dívida por ano, enquanto medidas relevantes de ajuste fiscal ainda enfrentam resistência política.
A principal leitura é relativa, não absoluta: a resiliência dos emergentes decorre tanto de melhorias próprias quanto da perda de conforto associada a parte da dívida desenvolvida. O desempenho recente favorece a diversificação da análise entre países, moedas e estruturas fiscais, mas não transforma o segmento em um ativo sem risco. Fluxos, inflação, juros americanos e credibilidade fiscal continuarão determinantes.
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