A Índia se tornou referência em pagamentos digitais, mas o dinheiro físico não desapareceu. Com a cobrança de uma taxa sobre certas transações pelo UPI, comerciantes e consumidores podem voltar a preferir cédulas em parte das compras.
O que aconteceu
Cerca de oito em cada dez compras na farmácia Care Chemist, em Mumbai, são digitais. Ainda assim, o gerente espera lidar com mais dinheiro vivo a partir de novembro, quando transações comerciais acima de 2.000 rúpias pelo Unified Payments Interface (UPI) estarão sujeitas a uma tarifa de 0,4%. Transferências entre pessoas e pequenos pagamentos de comerciantes ficarão isentos. A cobrança pode elevar o custo de operações que antes eram gratuitas, levando estabelecimentos a aceitar dinheiro, cartões ou cheques, ou a dividir pagamentos. O UPI processou aproximadamente 242 bilhões de transações no último ano financeiro, quase 12 mil vezes mais que em seu primeiro ano completo de operação.
Por que isso importa
O caso mostra que a expansão dos pagamentos digitais não elimina automaticamente a demanda por dinheiro físico. De acordo com os dados disponíveis, o valor das cédulas e moedas em circulação na Índia chegou a 42,7 trilhões de rúpias no fim de setembro de 2026, cerca de 2,3 vezes o nível anterior à desmonetização de 2016. A relação entre dinheiro em circulação e PIB voltou a aproximadamente 12%. O banco central descreve esse movimento como um “paradoxo do dinheiro”: o uso digital cresce, enquanto a quantidade de dinheiro mantida pela economia também aumenta.
O que deve ser observado
O principal ponto de observação será a reação de empresas e pequenos negócios à tarifa de 0,4%. Um relatório do State Bank of India apontou que comerciantes passaram a aceitar apenas dinheiro após maior fiscalização de transações digitais. Também entram no quadro a inflação, que chegou a 5,5% em setembro, e o custo de manutenção do UPI, estimado em 200 bilhões de rúpias por ano pela entidade que opera o sistema.
A experiência indiana reforça uma distinção útil: adoção digital e desaparecimento do dinheiro físico são fenômenos diferentes. O UPI pode dominar pagamentos cotidianos e, ao mesmo tempo, o dinheiro continuar relevante como reserva, meio de transação em setores menos formalizados ou alternativa quando custos e fiscalização mudam. Para acompanhar a tendência, importa observar não apenas o volume digital, mas também tarifas, circulação de cédulas e comportamento dos comerciantes.
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