Grandes empresas de tecnologia estão recorrendo a garantias e estruturas fora do balanço para financiar a expansão de data centers e chips de inteligência artificial. A estratégia barateia o crédito, mas pode ocultar parte da exposição econômica assumida pelas companhias.
O que aconteceu
Em menos de um ano, empresas de Big Tech emitiram até US$ 300 bilhões em compromissos ligados ao financiamento de infraestrutura de IA, registrando pouco dessa exposição diretamente em seus balanços. As chamadas garantias de valor residual asseguram um preço mínimo futuro para chips ou data centers. O mecanismo permite que veículos específicos emitam a dívida, enquanto a empresa de tecnologia oferece suporte financeiro. A Meta foi a primeira a adotar a estrutura, com uma garantia de US$ 28 bilhões para o projeto Hyperion, na Louisiana. A Broadcom assumiu US$ 29 bilhões de exposição em uma operação envolvendo chips para a Anthropic. A Nvidia anunciou suporte de até 25% em algumas operações e estendeu US$ 105 bilhões em garantias à SB Energy, ligada a um campus para a OpenAI em Ohio.
Por que isso importa
As garantias ajudam a financiar projetos com prêmio de apenas 100 a 150 pontos-base sobre a dívida do garantidor, segundo pessoas familiarizadas com as operações. Para os credores, elas reduzem o risco de obsolescência rápida dos ativos. Para as empresas, porém, criam obrigações potenciais que não aparecem integralmente no balanço. Analistas da Morgan Stanley contabilizaram mais de US$ 3,1 trilhões em compromissos e suporte de crédito fora do balanço de sete hyperscalers e fabricantes de chips. Agências de classificação ajustam seus cálculos de alavancagem para refletir parte desse risco.
O que deve ser observado
O ponto central será a diferença entre o valor garantido e o preço obtido em uma eventual venda ou reutilização dos ativos. A S&P afirma ter identificado, em uma operação, uma diferença de cerca de 25% entre o valor estressado e a dívida — o equivalente a aproximadamente US$ 5 bilhões em ajuste de alavancagem numa estrutura de US$ 20 bilhões. Também será relevante acompanhar o início dos contratos de locação da Nvidia para o campus da OpenAI, previsto para 2028.
A expansão da IA está sendo financiada não apenas por investimento direto, mas também por engenharia contratual. Isso melhora o acesso ao crédito e preserva capacidade financeira no curto prazo, mas dificulta comparar o endividamento entre empresas. A leitura mais útil dos balanços dependerá da análise conjunta de garantias, veículos específicos, valores residuais e possíveis ajustes feitos pelas agências de rating.
CONNECT